São dez horas da noite, ou vinte e duas horas e uns poucos segundos (se preferirem), e à saída de restaurantes esporadicamente encontra-se um aglomerado típico, rondando os vinte anos de idade, mais coisa, menos coisa. De todos, contam-se pelos dedos de uma mão, ou ainda menos, os que não tocaram numa gota de álcool (sempre alvos de insultos como “pequenotes”, “tónis” ou putos que “cheiram a leitinho”, vá-se lá saber porquê – é que aos vinte anos a sabedoria é tanta… ou então não!).
Preferia estar a assistir a um bom filme, a meio da sala de cinema. Ouvi dizer que estreou um drama há uns dias e que vale bem a pena, no entanto hoje fui arrastado para “os copos”. Termo carinhoso. Surgiu por volta dos meus dezasseis, dezassete anos, e hoje fico estupefacto, não… fico mesmo parvo ao verificar que a “canalha” é cada vez mais habitué nas noites; reflexos da evolução dos tempos, talvez, mas eu diria que chega a ser um abuso! Encontra-se de tudo: putos estúpidos que à quarta ou quinta imperial estão a depositar o jantar ao pé de uma parede na rua, miúdinhas palermas que se deixam ser aproveitadas (ou estão elas próprias a aproveitar-se) por um qualquer, ou então está a corja toda a trocar de casais (veridicamente é, no mínimo, assustador… contudo momentos destes são relatados com uma frequência que ainda assusta mais!).
Primeiro ponto: nunca me esforcei por entender tamanha confusão. Tanta coisa indecente dita sobre a minha geração, aquela dos pobres nascidos entre 1980 e 1985 apelidados de “jovens à rasca”, em sequência da anterior, a “geração rasca”, que fico mais confuso… ao ponto de começar a pensar que estes,… sim, estes putos (tanto como eu, se calhar… um pouco mais!), são a “geração rasca… à rasca”. Os média já baptizaram a geração com outro nome… contudo, e como sou teimoso que baste, prefiro o meu termo que, no fundo, até é mais poético! Agora, e sem fugir ao parágrafo, de que me vale entender esta “juventude perdida”? Porventura algum masoquismo que me queima uns poucos neurónios que me sobram (não vou negar que naquelas idades não deitei uns quantos neurónios pela sanita abaixo, aconteceu… mas não gastava cerca de setenta euros para o fazer como eles agora, em média, gastam por noite, e estaria bem mais consciente no momento em que “expulsava os demónios” do fundo das minhas vísceras) faz todo o sentido, pois num médio ou longo prazo esta juventude de hoje tomará as rédeas do amanhã, serão eles os líderes e os professores dos meus filhos… e a avaliar pelos comportamentos desordenados, promíscuos e irresponsáveis da “geração rasca… à rasca”, vão ser cá um exemplo…! Na minha religiosidade menos oportunista peço a Deus que tenha atenção, que continue a tresmalhar uma porção de ovelhas desse rebanho, para que ainda haja salvação!… Não será um cataclismo… será pior! É que, e com gravidade extrema, parece que há uma falta de valores… desvaneceram-se ou ficaram esquecidos no código genético, que antes tinha um gene qualquer que fazia das pessoas altruístas, dignas, correctas, ou apenas uma delas, mas existia!
Segundo ponto: de quem é a culpa, senão do próprio contexto em que vivem (família, amigos, grupos)? Há uns dias atrás falava com uma pessoa que dizia que “nós somos a primeira geração completamente livre pós 25 de Abril”… e as duas anteriores? Também não o eram? Não serve de justificação! Eu tive uma educação que se pode enquadrar em diversos parâmetros numa educação “não clássica”, mas aprendi o significado do que era importante para ter uma “vida boa”, e para isso não precisei de ter catequese até aos dezoito anos (que não tive… nem perto), educação moral até ao fim do secundário (idem!) e dois anos de estudos introdutórios à filosofia (em que pouco mais aprendi que alguns conceitos sobre correntes filosóficas). Falta qualquer coisa na comida deles que as mãezinhas não sabiam que as suas próprias mães punham, ou falta outra lição de moral que a professora da escola primária – ai não, isso acabou, agora é “professora do primeiro ciclo do básico” – não se lembrava (talvez tenha ficado traumatizada com as marcas do sistema de ensino pós-salazarista, em que ainda eram dadas umas lapadas quando um menino ou uma menina saía da linha – há momentos em que concordo com esse sistema). Deve faltar liderança forte, de atitude vincada e indiscutível, nos grupos deles… e agora até estão na moda os “grupos de escuteiros” que, na minha singela e peque(ni)na opinião, são cada vez mais um exemplo de decrepitude e falha constante de valores, constrastando veementemente com o que eram antigamente… Bem, nostalgia ou coisa parecida, chega dela!
Terceiro e último ponto: com um bocado (bem graaande) de sorte, talvez haja uma solução. Há, com efeito tem de haver… a menos que não seja descoberta – será meramente uma utopia, visto que, se me é permitido, está tudo a “ir-se pelo galheiro”. Num parágrafo lá para cima, assumi que Deus, na sua boa vontade, concedia-nos boas almas, que podemos classificar como as “ovelhas tresmalhadas” da “geração rasca… à rasca”. Sair seis noites por semana, quando não são sete, e de segunda a quarta há copos até “às tantas” e de quinta a sábado (ou domingo) há copos e “discos” até “para lá das tantas”… Por alguma razão advogo que as bebidas nos bares e discotecas deviam estar sujeitas a impostos bem mais altos, devia ser proíbido fumar nestes espaços e a maioridade poderia ser aos vinte e um anos de idade. Não é muito bonito encontrar-se um acidente na autoestrada, às cinco horas da manhã, provocado pelo álcool que um puto de pouco mais de dezoito anos, com um Volkswagen Golf de quatro meses, engoliu a noite toda no bar… ah, e com um ou outro “amiguinho” em estado crítico; este é mais um daqueles exemplos pontuais da falta de tacto da “geração rasca… à rasca”, e é um perdido entre milhares.
É uma pena desperdiçarmos tempo que nos pode ser precioso, dedicando a quem pode usar o que aprende com uma finalidade positiva, mas não o faz… Como se diz por aí, “só nos resta rezar”!